Industrial Metal flake

Publicado em 23 de março de 2015 | por Karen Batista

O último embaixador da Berlim Oriental: matéria traduzida sobre o livro do Flake Lorenz do Rammstein

Matéria do Die Welt sobre Der Tastenficker: an was ich mich so erinnern kann, a autobiografia do Flake Lorenz, tecladista do Rammstein. Tradução por Karen Batista.


 

Os mais velhos podem se lembrar de que, inicialmente, os alemães não sonhariam que o Rammstein se tornaria sua maior banda de rock de todos os tempos. Nos anos 90, os alemães orientais eram tidos como bárbaros. Os alemães ocidentais tomavam os músicos de aparência sombria por neonazistas ou encrenqueiros imaturos. Nunca imaginariam que aqueles caipiras culturais, que sequer podiam saber o que estavam fazendo, se tornariam famosos quando envolveram Leni Riefenstahl [N.T.: cineasta alemã que, entre outros trabalhos, dirigiu vídeos de propaganda nazista e o filme “Olympia”, utilizado no clipe de “Stripped” do Rammstein. Os integrantes do Rammstein sempre alegaram que utilizaram o vídeo de Leni puramente pela beleza das imagens e que desconheciam o trabalho dela como propagandista de Hitler] e puseram suas palavras sinistras em música marcial heavy metal.



Isso é difícil de acreditar no século XXI: o Rammstein tocando na fábrica da Volkswagen em Wolfsburg como entretenimento da empresa. São presenteados com prêmios da indústria musical. Belos retratos dos integrantes são impressos em jornais de tiragem nacional; os relatos mais perceptivos sobre suas viagens os descrevem como os embaixadores musicais do seu país.

“De alguma forma, o tempo prevalece”, diz Flake. Christian “Flake” Lorenz é o tecladista e bobo da corte do Rammstein. Com suas danças e gestos nervosos e o humor sobre o qual este teatro do rock pesado se equilibra, a banda talvez não existisse hoje. Flake diz que dá tudo na mesma pra ele. Ele está sob o teto da sua editora, que publicou seu livro “Der Tastenficker”, no qual ele descreve como se tornou quem é. Um herói do rock’n’roll de 48 anos que, com o entusiasmo de um garotinho, descreve como o azar pode virar sorte, quando assim se permite.
Ele se delicia ao recontar e tentar entender o que há agora no livro, com os óculos imponentes em seu rosto e em seu amigável sotaque alemão oriental, do tipo que não se escuta mais aqui no Prenzlauer Berg, onde ele sempre viveu [N.T.: bairro boêmio no leste de Berlim]. E é sobre isso que suas memórias são: a perda de uma pátria. Flake escreve: “Eu gostava mesmo da Alemanha Oriental”. Nenhum oficial arrependido da Stasi [N.T.: polícia política da Alemanha Oriental], nenhum cantor famoso humilhado, nenhum medalhista olímpico esquecido, ou nenhum político de esquerda teria permissão de colocar isso no papel. Um punk alemão oriental tem essa permissão, só porque os triunfos da Alemanha Oriental naquele tempo não são tão diferentes assim dos do Rammstein.

Nos anos 90, tudo era controlado por comissões que eram distantes o bastante da vida das pessoas, que não sabiam muito sobre elas e consideravam seus registros como a única verdade. Aqueles que não mantinham sua distância na Alemanha Oriental e suspeitavam da validade desses registros eram considerados gente inoportuna, que ainda tinha muito a fazer para aprender a viver no novo país.

O que finalmente aconteceu à Alemanha Oriental é ainda mais inoportuno à medida que se aproxima o aniversário da queda do muro: as exposições, festividades e especiais de TV, produzidos em massa por editores ingênuos, não mostra a ditadura como era na vida cotidiana um tanto cinzenta. Em vez disso, eles ilustram a vida colorida que não deixava nenhuma ditadura atrapalhar. A “Ostalgia” [N.T.: um trocadilho com “Ost” – Leste, Oriente – e “Nostalgia”, significando a saudade que alemães orientais sentem até hoje da época anterior à queda do muro de Berlim] tornou-se um problema interno do lado ocidental, um que os alemães orientais alegam ser muito melhor do que realmente era.

Normalmente, as pessoas reservadas não achavam nada de especialmente bom na Alemanha Oriental, mas obedeciam suas regras. Em seu livro, “Der Tastenficker”, Flake diz o contrário: sabendo que se tinha na Alemanha Oriental um Estado assistencialista, dava para viver como um rei simplesmente fazendo brincos com arame ortodôntico, andando aos solavancos pelo país em uma van pequena e tocando a música mais descontraída do mundo.



Flake queria virar médico, como muitos outros que nem ele. Mas ele morria de medo do exército, como todo mundo na Alemanha Oriental. Aqueles que se tornaram médicos foram convocados e por isso Flake desistiu da profissão que escolhera, e fugiu do alistamento vivendo como um nômade punk até que a ditadura foi desmantelada. E acima de tudo, sem fugir para o lado Ocidental, algo de que ele se orgulha até hoje.

Ele se lembra como ele encontrou amigos que fugiram para o outro lado e lá se desiludiram. O Feeling B [N.T: banda punk na qual Flake e Paul Landers tocavam juntos] tinha permissão para tocar na Berlim Ocidental, onde sentiam saudades do lar logo do outro lado do muro. “Depois de termos tido esse vislumbre do lado ocidental, tentamos tornar tudo o mais confortável possível para nós na Berlim Oriental e tivemos sucesso em fazê-lo”, escreve Flake.

Embora seja uma diversão para o Rammstein debochar deste novo mundo em que não há mais punks mas rockstars, Flake delicia-se glorificando sua terra perdida como um paraíso e debochando do país em que ele vive agora. Ele é um nostálgico que sente falta do socialismo? Não seria o capitalismo a forma mais pura de nostalgia, já que existe há muito mais tempo? Ele ainda não chegou à nova Alemanha.

Ele faz questão de subestimar os fatos que os editores tão inflexivelmente expõem. Havia a Stasi: Flake escreve sobre o quão conveniente foi quando descobriu que o informante da Stasi era integrante de bandas e que suas bandas tinham nomes como Die Firma. “A Stasi encorajava as bandas a se rebelarem contra a Stasi e exigir sua queda”, ele diz. Uma das nossas próprias bandas chamava-se Die Magdalene Keibel Combo, já que a Stasi ficava na Magdalenestraße, e a polícia na Keibelstraße. “Estou banalizando isso”, diz, “mas é assim que vivi a situação”.



Além do seu próprio nome, não há quase nenhum outro nome real na sua história, apenas menções a “o pai”, “o irmão” e “o vocalista”. Não há um “nós” narrativo como acontece frequentemente em livros sobre a vida na Alemanha Oriental. Flake portanto rejeita a falácia de que os alemães orientais foram tão eficientemente coletivizados que já nem existia mais um “eu”. Este Eu em particular cresce com dificuldades na fala, usa óculos de armação grossa, sofre bullying, tem todo tipo de fobia conhecida, vira alcoólatra e não tem o menor jeito com as mulheres. Assim ficou famoso no lado oriental, mas no lado ocidental se tivesse sorte, teria talvez sido apenas um nerd.

Flake tem toda razão em estar imensamente decepcionado com como seu dinheiro ganho no Rammstein foi perdido para sempre, graças a consultores financeiros gananciosos e desonestos e parceiros de negócios irresponsáveis, mais recentemente com uma firma de aluguel de carros antigos. Ele amaldiçoa a crueldade, os maus modos e o egoísmo de gente capitalista. E nem é necessário pensar que a Alemanha Oriental era tão boa assim, ou provavelmente nem precisa ter vivido lá para compreender o Flake. Há alguns que viviam melhor na Berlim Oriental em 1990 que em 2015. “Não acho esse conceito de liberdade grande coisa”, diz Flake, tendo explicado isso em seu livro de forma mais elaborada e mais clara. O Rammstein não é muito mais que uma festinha de aniversário de crianças eternas, hoje sob as condições às vezes opressivas do livre mercado.

Há muitos livros publicados em lembrança do 25º aniversário da reunificação da Alemanha, e se tiver que ler um, leia “Der Tastenficker”. Como música para acompanhar a leitura, sugiro uma música da banda alemã mais livre que já existiu: Sonne, do Rammstein.



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Sobre o Autor

Germanófila desde 2004, após uma epifania ao ouvir "Mein Herz Brennt" do Rammstein pela primeira vez na faculdade de Artes. Criou o Tumblr "Till Lindemann - Poeta Camponês dos Olhos Tristes" sob o pseudônimo Kathrin Täufer em 2012 e a página Rock, Metal e Alternativo Alemão em 2014. Agora, ela segue o trabalho de divulgação das bandas da terra do chopp e do chucrute na LuaSombria.com.br.



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