Industrial Metal ostfront

Publicado em 14 de fevereiro de 2015 | por Karen Batista

Entrevista com Patrick Lange, do Ost+Front para a Slavestate Magazine

Entrevista de Maria Bergman da Slavestate Magazine com Patrick Lange, o vocalista do Ost+Front, originalmente publicada em 1º de janeiro de 2014. Tradução por Karen Batista.


Há muita controvérsia em torno da banda alemã Ost+Front (Frente+Oriental) desde seu álbum de estreia, Ave Maria, lançado em agosto de 2012. A imprensa musical criticou a banda por copiar o Rammstein, tanto musicalmente como em sua imagem controversa.

O single para Ich Liebe Es foi acompanhado de um vídeo pornô de sadomasoquismo hardcore que só está disponível sem censura em alguns canais de sexo [ATENÇÃO: esta é a versão censurada do vídeo mas ainda assim, é NSFW – não é adequada para assistir no trabalho].



 

Em 2014 eles ganharam as manchetes alemãs quando o prefeito de Windeck, Hans-Christian Lehmann, cancelou o show deles, alegando não querer na sua cidade uma banda que glorifica a violência com um nome associado à guerra.

Contudo, ao ouvir com mais atenção, percebe-se que eles são muito mais do que uma banda cover do Rammstein tentando chocar com efeitos toscos. A música é bem produzida com melodias fortes e letras complexas em várias camadas de significado.

A banda foi fundada pelo vocalista Herrmann Ostfront, nome artístico de Patrick Lange, das bandas de rock medieval Corvus Corax e Tanzwut em 2008 [N.T.: e atualmente, também da banda medieval Nordhammer, além de percussionista do OOMPH! sob o nome artístico Okusa].

O restante da banda compõe se de: Gernhardt von Brüh (guitarra), Eva Edelweiß (teclado e percussão), Wilhelm Rotlauf (baixo), Siegfried Helm (guitarra), and Fritz Knacker (bateria).

Contatei o Herrmann Ostfront para obter algumas explicações sobre sua imagem e as provocações.

Ele cresceu na antiga Alemanha Oriental, quando o muro dividiu Berlim e a Cortina de Ferro dividiu o mundo entre o bloco oriental comunista e o bloco ocidental capitalista. O que torna a infância de Herrmann um pouco diferente é que ele nasceu na Alemanha Ocidental.

Minha infância foi bem instável. Meus pais eram ativistas socialistas que deixaram a Alemanha Ocidental para recomeçar a vida na Alemanha Oriental. Minha vida mudou do colorido para o cinza, das tentações capitalistas para um padrão modesto de vida e de ser um indivíduo para ser parte de uma comunidade, tudo isso em um dia. Eu sentia saudades dos meus antigos colegas de escola. E eu tinha um status especial na minha nova escola. Eram sempre amigáveis comigo, mas provavelmente pensavam: “não é bom contar nem perguntar muitas coisas para ele”.

Você acha que é melhor agora após a queda do muro e que o país está unido novamente?

Essa não é uma pergunta fácil de responder. A vida era melhor tanto no lado Oriental como no Ocidental antes do muro cair. E de repente, estavam unidos. Isso mudou a forma como as pessoas pensavam. Ainda há uma grande diferença entre os dois lados, mesmo em uma cidade grande como Berlim.

Você ainda se lembra de algo do 9 de novembro de 1989, quando o muro caiu?

Sim, me lembro daquele dia! Foi uma sensação estranha. Muitos que eram infelizes na Alemanha Oriental foram pro outro lado para ver o que tinham perdido durante todos aqueles anos e não encontraram. Os socialistas leais estavam assustados e sentiam-se como se tivessem tido sua identidade roubada. Eu tinha 11 anos quando o muro caiu, e fiquei contente em rever meus antigos colegas de escola.

O frontman é um multiinstrumentista e iniciou-se na música precocemente.

Comecei com flauta e piano. Música clássica, como Mozart, Beethoven, Handel, etc. Um tanto chato para mim na época. Mais tarde, tive aulas de percussão e canto. Ainda era chato. Quando eu tinha 13 anos toquei numa banda de metais, do que eu gostava bastante. Calypso não era exatamente meu tipo preferido de música, mas eu gostava de tocar junto com um grande grupo. Então eu vi um clipe de uma banda holandesa chamada Pestilence e decidi começar uma nova vida como um rockstar. Comprei uma guitarra sem saber como tocá-la e comecei a minha primeira banda, Ferox. Aprender fazendo foi ótimo! Parecia que eu estava inventando a música. No total, toco 666 instrumentos.

Outra influência durante a juventude de Herrmann foi um fenômeno holandês de hardcore extremo chamado Gabber. Sua banda tocava uma mistura de Buzz Fuzz e Extreme Noise Terror. Vindo da música futurística ele chegou à música medieval com o Corvus Corax. A cena do rock medieval é imensa na Alemanha e agrada a todos os públicos, de famílias a góticos e metaleiros.

Nas minhas primeiras bandas, o foco era na produção. Nesse novo estilo (para mim) o som não era tão importante. A meta era escrever em pouco tempo várias melodias que grudassem na cabeça e fazer bastante dinheiro com elas. Isso era completamente novo para mim. Até esse ponto, eu nunca tinha pensado em ganhar dinheiro com a minha música. Era só uma maneira de me expressar e um hobby. E aí eu tinha uma nova meta: ser extremo, fazer um bom som com melodias contagiantes e ganhar dinheiro. O resultado foi o Ost+Front!

O nome Ost+Front tem levado a mal-entendidos sobre as inclinações políticas da banda.

No início havia quem nos entendesse errado e achasse que éramos uma banda de direita. Mudando o nome e colocando um + no meio, quisemos deixar claro que somos da Alemanha Oriental e que tocamos com a força de uma frente de batalha.

A banda estreiou em 2011 no festival M’Era Luna. Já que ele tinha um contrato para aparecer, ele convidou alguns antigos amigos para tocar com ele, e eles não o deixaram desde então. No tal evento, Chris L. do Agonoize cantou. Herrmann tocou guitarra e fez os vocais de apoio.

Chris deixou a banda após duas semanas. O que aconteceu, e por que o Herrmann não cantou?

Oh, eu cantei no início. Só tive a ideia de ter um outro vocalista para ser o foco e dar todas as entrevistas e coisas assim, para que eu pudesse me concentrar em escrever e produzir. Foi uma tentativa breve, e então eu consegui fazer esse trabalho duplo. Com toda a organização é mais um trabalho triplo. Eu estou vivendo isso!

Foi difícil conseguir um contrato com gravadora?

Eu já estava estabelecido na indústria musical, então pedi para vários promotores fazerem contatos para mim. Falei com várias gravadoras e por causa do alto custo de produção, só a Out Of Line teve culhões o bastante para assinar um contrato tão caro com uma banda nova.

Herrmann escreve e produz todo o material ele mesmo. Além dele há apenas um engenheiro de som e uma vocalista feminina de apoio no estúdio. Como isso não fosse o bastante, ele ainda toca ao vivo com bandas como o OOMPH!, sob o nome artístico Okusa. Ele ainda vai continuar com isso?

Sim, eu adoro tocar com o OOMPH!. Pelo preço certo e se eu gostar da música, sou sempre “agendável”.

Falando de pseudônimos, Herrmann tem mais identidades secretas que o Batman.

É porque cada uma delas tem um papel diferente. Herrmann é um personagem maligno e destrutivo. Okusa é direto, justo e trabalha duro para melhorar a si mesmo. Der Kalauer está na geladeira por um momento. Um festeiro sem meta nenhuma na vida. E Patrick Lange é só a pessoa privada sem graça por trás deles todos.

Qual é a ideia e o significado do Ost+Front?

 A ideia foi surpreender o mundo, e surpreende, inclusive a mim mesmo. A banda é como um filme. Eu dirijo a música e as imagens a novos extremos. Era tão chato para mim ver minhas bandas preferidas no palco vestidas com as mesmas roupas com que andam na rua. Em um bom filme não se tem só a trilha sonora.

A banda definitivamente não pertence politicamente à extrema direita, muito pelo contrário. Contudo, às vezes é compreensível que algumas pessoas entendam mal a ironia e a sátira da banda. Da primeira vez que ouvi 911 eu pensei ter ouvido “Sieg Heil” no refrão, o que é proibido na Alemanha.

Eu grito “Jihad” nessa música. A guerra santa dos muçulmanos. A letra é sobre a reação deles contra os EUA e como os americanos veem a si mesmos como a polícia do mundo, enquanto lideram guerras pelo petróleo e exploram outros países. 911 é o número americano de emergência da polícia e uma abreviatura do 11 de setembro.

O quão importante é a controvérsia e a provocação na música?

Para mim é muito importante. É uma forma de confrontar as pessoas com um mundo que ninguém quer ver. Abuso e estupro de crianças me choca! Tenho opiniões muito radicais quanto a isso.

Quando pergunto quais outras bandas controversas ele curte, ele não consegue pensar em muitas.

O Manson já teve a época dele, mas acho que ele ainda pode ser grandão novamente. O Rammstein é perfeito porque eu entendo exatamente tudo o que eles cantam. O Rob Zombie faz um ótimo trabalho com seu estilo de terror, mas não é lá muito controverso. É como assistir um filme antigo do Frankenstein. Adoro o trabalho dele.

Muitos, contudo, acham que o Ost+Front é controverso. O vídeo de “Ich Liebe Es” é pornô sadomasoquista hardcore. A letra de Gang Bang é sobre estupro coletivo. Isso não é um pouco demais?

Não, isso é parte do mundo e eu quero informar as pessoas sobre essas coisas. E toda a publicidade é boa desde que estejam falando de mim.

Alguns críticos musicais tem acusado o Ost+Front de copiar o Rammstein.

Existem várias bandas na Alemanha com esse estilo. O Rammstein é a maior banda da cena e eles são perfeitos. Por isso que eles são a banda número um!

Quem planeja os shows deles?

Fazemos isso juntos em reuniões. Cada um mostra suas ideias e então criamos um conceito a partir delas. Algumas coisas acontecem no palco e então decidimos incorporá-las no show. Um exemplo disso é o “monitor humano”. Odeio quando os cantores põem o pé no monitor de som. Faço uma sátira disso quando coloco meu pé no corpo do Eva Edelweiss e ele se torna meu monitor humano.

O prefeito de Windeck, Hans-Christian Lehmann não gostou do humor negro da banda quando ele cancelou o show deles após ver o vídeo de Denkelied. Uma canção encantadora sobre Karl Denke, que matou pelo menos 42 homens e os comeu. O vídeo apresenta nosso simpático açougueiro Herrmann cortando corpos e então os servindo.




Por um momento pareceu que o caso iria parar na justiça. A banda quis indenização por quebra de contrato. Os organizadores tentaram encontrar uma nova data. E acabou sendo boa divulgação.Eles lançaram após isso um EP com Bitte Schlag Mich. Uma música um tanto diferente do estilo costumeiro deles, já que tem uma batida um pouco mais pop.

A música é sobre uma mulher que apanhou durante a infância e depois arranja um marido ou namorado que também é violento contra ela. É como se ela tivesse aprendido quando era criança que o abuso era algo normal e ela visse isso como uma forma de carinho. É um fenômeno comum entre pessoas que cresceram em meio à violência frequentemente encontrarem esse mesmo tipo de vida novamente quando adultas. O que inclui a parte do abusador também. Filhos que veem seus pais batendo nas suas mães frequentemente fazem o mesmo depois. “Como o pai é, assim é o filho / Olhos azuis me são leais / por favor me bata!”, diz a letra, uma história triste mas verdadeira.



Heimkind também tem uma história séria e trágica por trás dela. É sobre abuso de crianças em orfanatos cristãos.

Achei um documentário sobre como aquelas crianças foram maltratadas e comecei a escrever as letras. Tenho uma opinião forte sobre isso. Pena de morte para os pedófilos! Eu não tenho problema algum com a religião. Cada um pode acreditar no que quiser. Eu acredito em mim! Minhas letras têm várias “camadas”. A mesma letra tem uma mensagem direta e simples para os ouvintes casuais e também uma mensagem poética sensível incrustada para as pessoas que gostam de ler nas entrelinhas. Dá para imaginar que não é fácil escrever nesse estilo. Para compôr a melodia preciso de um dia, e de um mês para a letra.

O Ost+Front já fez parcerias com outras bandas alemãs góticas e de metal, como o Lord Of The Lost e o Saltatio Mortis. Me pergunto se há mais alguém com quem o Herrmann gostaria de trabalhar.

Oh, sim! Há bastante pessoas com quem gostaria de trabalhar. Peter Steele [finado frontman do Type O Negative] já morreu, caso contrário ele teria sido minha escolha número um. Adoraria ouvir o Lemmy [Kilmister, do Motörhead] cantar algo em alemão comigo.

Os outros integrantes da banda são todos mascarados e anônimos. Herrmann explica que é porque eles todos tem outros trabalhos. O Ost+Front está crescendo, mas eles precisam pagar as contas.

Eles são como personagens em um filme. Se lembra dos filmes antigos do Godzilla? Eles seriam uma bosta se o ator não vestisse a fantasia de Godzilla dele.

Futuramente, Herrmann quer tornar a imagem do Ost+Front ainda mais extrema, e gostaria de um dia fazer um musical.



Pra concluir, o que a família dele acha dessa sua vida Rock ‘n’ Roll e há mais alguma coisa além da música que ele curte fazer?

Não tenho nenhum contato com meus pais e o resto da minha família acha que sou louco, mas eles curtem o que eu faço.

A música é meu trabalho, minha religião e meu melhor amigo. Não tenho muita vida pessoal. Quando tenho tempo, curto cozinhar, porque me deixa feliz. Ah, e claro, sexo, que é meu maior hobby.


Agradecemos à jornalista Maria Bergman pela gentileza de ceder à Rock, Metal e Alternativo Alemão o direito de traduzir suas entrevistas para o português brasileiro.

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Sobre o Autor

Germanófila desde 2004, após uma epifania ao ouvir "Mein Herz Brennt" do Rammstein pela primeira vez na faculdade de Artes. Criou o Tumblr "Till Lindemann - Poeta Camponês dos Olhos Tristes" sob o pseudônimo Kathrin Täufer em 2012 e a página Rock, Metal e Alternativo Alemão em 2014. Agora, ela segue o trabalho de divulgação das bandas da terra do chopp e do chucrute na LuaSombria.com.br.



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