Contos Black Cat

Publicado em 27 de janeiro de 2011 | por Trevor

Um Gato Misterioso

“Uma neve intocada se torna vermelha, inocência morre” – Epica

Para maioria de nós, o lacre da inocência se rompe com a chegada da maturidade. Para outras pessoas, a maturidade é irrisória quado se trata de corromper a alma e despertar a escuridão até então adormecida dentro de nós. Porém, ultrapassando os limites da sanidade, existem passagens ainda mais sombrias cuja nossa razão se recusa a acreditar – foi por onde Victória trilhou. Caros leitores amantes das sombras, apresento-lhes mais um belo conto obscuro de Danielle Assis. Encha sua taça de vinho e boa leitura!

 

Numa manhã fria, Victória estava em seu quarto no dormitório do internato, observando pela janela a imensa floresta que se estendia a sua frente, com uma vastidão de carvalhos e teixos dos mais diversos tamanhos. Alguns pássaros cantavam ao longe e uma brisa suave e perfumada vinha da pequena abertura da janela. Seus olhos pararam, por um instante, num movimento no parapeito. Era um gato todo preto com uma grande mancha branca no peito; ele andava no beiral. Passando pela janela de Victória, ele parou e colocou a pata no vidro. Ela estendeu o braço e pegou o bichano pelas mãos, ele estava tremendo. Quando ela colocou-o no chão, ele arrepiou todo o pelo e balançou a cabeça. Depois disso, andou em torno das pernas dela durante uns cinco minutos e pulou novamente no beiral da janela. Quando ela aproximou com as mãos esticadas ele deu um salto para baixo e sumiu.

Victória ficou impressionada com seu sumiço repentino no ar. Fechou a janela e desceu para o refeitório. Lá encontrou umas pessoas de sua sala que tinha pouca afinidade, então, decidiu sentar se no jardim. Sentou se no banco do jardim com a caneca de leite e ficou observando o movimento dos alunos. Há um tempo seu apetite estava mudando, não sentia mais vontade de comer como outrora e suas refeições ficaram reduzidas o café da manha uma pequena porção de comida no almoço, que na maioria das vezes, comia sem a mínima vontade. Sentia-se fraca fisicamente, mas forte no propósito. De reencontrar seu amado Armand. Afinal, a escolha foi sua, agora tinha de arcar sozinha com as consequências de abrir mão de sua humanidade para viver a danação ao lado de seu grande amor. Será que havia feito a escolha correta?! Só o futuro poderia revelar…

Quando este pensamento veio lhe a mente, ela percebeu o quanto estivera sozinha. Em fração de segundos, toda a sua infância e parte da juventude passou em sua mente. Numa breve retrospecção espontânea. Foi triste perceber que em todo este tempo não tinha nenhum rosto amigo a quem recordar, exceto, sua mãe e seu amado Armand. Victória sempre fora uma pessoa de boa memória, por isso tinha facilidade em guardar rostos e nomes. Foi isto que a fez perceber um movimento sutil atrás do banco, até que um felino preto saiu entre suas pernas. Se fosse uma jovem histérica teria quase desmaiado de tanto susto, mas, ela em sua sensibilidade aguçada, já sabia que não estava sozinha. Neste dia ela vestia um vestido fino de renda preta, com um lenço fino branco em torno do pescoço.

Victória não gostava muito de maquiagem, exceto o lápis nos olhos e um batom vermelho. Um jovem de sua sala passou por ela e perguntou-lhe: “O que você está olhando ai no chão, estranha…?” Ela fitou no fundo dos olhos e permaneceu calada. Quando voltou seus olhos novamente para o chão o gato não estava mais lá. Ela olhou em torno, sutilmente, e percebeu que havia desaparecido de forma tão estranha quanto da queda pela janela. Desde o primeiro ano, seus colegas a chamavam de “estranha”, visto seu comportamento antissocial e misantropo.

Foi para a sala sem a mínima vontade, somente porque havia uma prova naquele dia. Feita está, ela partiu para a biblioteca onde passou a maior parte da tarde.  Até que, num repente, viu o movimento de uma sombra em um corredor. Ela estava procurando um livro falando sobre os descendentes romenos. Mas, quando ela avistou a sombra do gato, passar pelo corredor, foi correndo atrás para verificar se era o mesmo gato do roseiral.  Quando ela chegou, o gato parou a poucos metros a sua frente e encarou-a no fundo dos olhos. Eriçou o pelo de todo o corpo e empinou o rabo. Mostrou a Victória seus afiados dentes e pulou em sua direção. Ela, numa reação espontânea de defesa deu um soco na cabeça do gato e este caiu ensanguentado no chão.

Neste momento, ela sentiu o fluir de seu sangue correr em suas veias e sua pulsação estava totalmente arrítmica. Seus olhos estavam ardendo, como bolas de fogo e seu corpo todo trêmulo da cabeça aos pés. Num movimento rápido pegou o felino e bebeu o sangue que lhe escorria pelos olhos. Estranhamente, isso a fez lembrar se de seu amado companheiro desaparecido.

Nesse momento parou e olhou nos olhos do gato.  Ele ainda estava vivo. Colocou o no chão e limpou a ferida. Assim que ela acabou o gato virou e sumiu. Mas desta vez, no lugar onde ele estava, apareceu uma linda tulipa vermelha. Victória pegou a flor e levou para o quarto para colocar na água. Agora sabia quem era o gato misterioso. E que ela precisava ser testada, para ver se era capaz de permanecer firme em seu propósito ou não. E que Armand, seu amado, estava acompanhando a distancia.

Quando ela colocou a flor dentro da água suas pétalas caíram dentro da jarra e se transformaram num fluido vermelho sangue.  Quando ela encostou o nariz na beirada pode sentir o cheiro doce da flor. Mas quando colocou o líquido nos lábios era amargo seu sabor. Mas sentiu-se saciada, imediatamente. Doce perfume de mel, mas amargo como fel. Desta forma Victória pode sentir sua verdadeira natureza. E que se quisesse permanecer com seu amado Armand precisaria aprender a conter seus impulsos. Percebeu neste momento que estava começando sua fase na lua negra. Assim como quando uma neve intocada se torna vermelha, inocência morre.

D&casrneiro.Produções


Sobre o Autor

Desenvolvedor de sistemas web, fascinado por estórias sobrenaturais e música obscura. Criou o Lua Sombria para divulgar informações sobre bandas, livros, jogos de RPG e trocar idéias com pessoas que compartilham esses mesmos vícios.



Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Voltar ao Topo ↑
  • † Siga-nos

    Facebooktwittergoogle_plusrssyoutube
  • † Facebook

  • † Twitter

  • † Parceiros

    Blutengel Brasil - Fã Blog

    Alternativo Alemão

    Insanity BH
  • † Pinterest


UA-20981104-1