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Publicado em 28 de janeiro de 2011 | por Trevor

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Sangue e Loucura

Acordei olhando o relógio. Para meu azar, aquele irritante som do despertador não tocou dessa vez. Vi meio embaçado “7:13″ no display vermelho, estava atrasado! Pude ver a lua brilhando lá fora enquanto eu corria desajeitado para fechar a cortina e pegar minha toalha. Nesse tempo frio de julho, não é nada agradável tomar uma banho de água gelada. Mas não tive tempo de consertar a merda do chuveiro. Minha única preocupação era chegar ao trabalho a tempo.

Odeio minha profissão! Mas foi a única coisa que consegui depois do fogo transformar tudo o que eu tinha em cinzas: casa própria, esposa e filho. O desgosto de ser vigia noturno começa antes do expediente. No caminho você  se sente andando pela contra-mão ao ver todos indo para casa descansar, ao passo que você tenta se preparar para enfrentar uma longa jornada. Acendi um cigarro para tentar esquentar meu corpo e aliviar meus anseios. Dei o último trago a um passo antes de cruzar as grades de aço da entrada de onde trabalho.

Nas primeiras noites como vigia do hospital psiquiátrico Galba Veloso, sentia pavor ao cruzar aqueles portões e começar a escutar os gritos, choros e murmúrios dos insanos. Porém, depois de um ano convivendo com isso, eu já havia criado minha armadura psicológica que me protegia do frio na espinha causado pelos pacientes daquele hospital bizarro.

Depois de várias noites trabalhando num pátio deserto e sombrio,  o meu maior receio não era mais de alguém entrar, mas de algum doente mental sair.  Capturá-los depois de uma fuga era uma tarefa realmente desagradável.  Quanto aos invasores,  eu nunca havia encontrado algum. Mas naquela noite, algo peculiar me chamou atenção.

Contra uma enorme lua cheia, vi a silhueta de uma mulher. Logo pensei em uma fugitiva, mas ao apontar minha arma e acender a lanterna em sua direção, minha primeira impressão se desmanchou como a escuridão que escondia o rosto daquela deusa macabra. Seus cabelos eram rubros como sangue, a mesma cor dos olhos que olhavam diretamente para mim.

Ela sorriu. Tive a impressão de ter visto um par de caninos pontiagudos em seu sorriso sedutor. Apertei os olhos na tentiva de me desfazer de uma ilusão, mas quando eu os abri novamente, ela não estava lá.  Repentinamente ouvi uma voz sussurar em meu ouvido:

— Tenho te observado por muitas noites, Lucas…

Meu medo foi maior que a minha curiosidade sobre o fato d’ela saber o meu nome. Em um ato de puro instinto de sobrevivência, apontei minha arma para seu busto e atirei desesperadamente enquanto o suor escorria em minha testa.

Quatro tiros no peito seriam o suficiente para derrubar e acabar com a vida dos bandidos mais durões. Mas aquela mulher, com um corpo aparentemente frágil e perfeitamente desenhado com curvas sedutoras, deu apenas 3 passos para trás. Vi uma expressão de dor e ódio em seus olhos até subitamente me ver arremessado contra uma parede a 4 metros de distância, com uma dor dilacerante que sufocava todo o ar que eu tentava respirar.

Minha visão ficou turva. Sentia o sangue escorrer pelo meu rosto e uma dor absurda, que foi aliviada ao sentir a língua dela deslisando sobre minha face. Abri meus olhos. Apesar da vista embaçada, consegui ver aquele rosto perigosamente lindo a poucos centímetros do meu. No primeiro momento, pensei em arremessa-la para longe de mim, mas a vontade de continuar contemplando aqueles lábios e olhos vermelhos era mais forte. Enquanto eu permanecia ali, extasiado,  ela disse:

— Você é corajoso Lucas, mas sua vida é patética! Eu sei como você se sente vazio e o quanto está cansado desse hospital de loucos. Fica se lamentando noite após noite e não faz nada para mudar. Eu posso acabar com seu sofrimento de duas formas, e a acredito que a melhor opção é vindo comigo. Lhe darei um pequeno presente das trevas…

Foi nesse instante que eu pude dar o último adeus à minha sanidade. Por mais que o que ela havia dito fosse coisa de um paciente daquele lugar, para mim fazia total sentido. Não sabia mais se era eu ou ela quem deveria ser internado. Mas isso não importava mais. Sua doce voz entrara em minha mente, causando reações que eu não poderia explicar em palavras. Então eu disse sem medo:

— Quero me juntar a você. Quero que você me leve…

Antes que pudesse me dar conta do que havia acabado de dizer, senti minha jugular sendo perfurada. A dor me fez segurar a arma com força. Queria descarregar o resto das balas naquele demônio que me seduzira. Mas antes que eu fizesse isso, a dor se transformou em prazer. Meu sangue estava fluindo para fora do meu corpo, e aquilo me excitava estranhamente. Fiquei mais fraco, minha razão já havia ido embora. Eu existia apenas para me deleitar daqueles lábios beijando meu pescoço e sugando toda minha sanidade, toda minha vida… Até que nada mais existisse. Apenas a escuridão…

Acordei em minha cama. Via claramente o relógio marcando 7:26 pm.  Pela primeira vez, não me importei em estar atrasado para o trabalho. Me importei apenas em como saciar aquela sede estranha que eu sentia pela primeira vez na… “vida”. Fiquei tentando assimilar que diabos de sede era aquela até ver novamente a mulher do meu sonho, de pé, em frente à minha cama. Ela sorriu maliciosamente e disse:

— Creio que esteja com sede. Levante-se e venha comigo….


Sobre o Autor

Desenvolvedor de sistemas web, fascinado por estórias sobrenaturais e música obscura. Criou o Lua Sombria para divulgar informações sobre bandas, livros, jogos de RPG e trocar idéias com pessoas que compartilham esses mesmos vícios.



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