Contos cigarros e vinho

Publicado em 12 de janeiro de 2013 | por Trevor

Paixão Possessiva

“Tornei-me insano, com longos intervalos de uma horrível sanidade.” – Edgar Allan Poe

Era mais uma noite de sexta-feira. Até alguns meses atrás, eu era apaixonado por noites como essa. Era quando eu encontrava com minha adorável Alícia. Desfrutávamos de todos os tipos de prazeres que a madrugada poderia oferecer à dois amantes da escuridão, seja na movimentação de um clube noturno  ou na tranquilidade do cemitério.

Porém, nessa noite, minha única companhia era a garrafa de vinho barato e os cigarros mal cheirosos. O odor da nicotina impregnava meu apartamento vazio, assim como eu. Alícia me deixara, e era é impossível tê-la de volta. A depressão era um câncer em minha alma, que começava a se manifestar em meu corpo. Os olhos fundos e os ossos se destacando em minha pele eram reflexos da fraqueza que me corroía por dentro.

Cansado da dor, tentei preencher minha mente com algo que me pudesse trazer alguma esperança. Liguei o computador e comecei a pesquisar algum meio de trazer Alícia de volta pra mim. Não sabia por quanto tempo ao certo fiquei ali, mas as garrafas vazias de vinho que eu deixava jogadas ao meu redor denunciavam que já haviam se passado muitas horas. Foi no auge de minha embriagues que por fim encontrei um ritual num site de magia na deep web.

30 Minutos depois estava eu cambaleando pelas ruas escuras e desertas em busca de minha amada. Meus pés não me obedeciam direito, um incômodo formigamento tomava conta deles, e a densa neblina no chão não me deixava enxergar o caminho. Apesar de não ver ninguém na rua, eu podia sentir que estava sendo observado por alguma coisa. Subitamente, vultos começaram a cruzar meu caminho sussurrando coisas ininteligíveis ao pé dos meus ouvidos, intercalando com risadas esganiçadas e gritos guturais. Aquilo fez todos os pelos do meu corpo se eriçarem.

Mesmo que tomado pelo medo, continuei minha jornada até onde Alícia estava: no cemitério da cidade a sete palmos do chão. Peguei a primeira pá que encontrei (que provavelmente pertencia ao coveiro) e comecei a cavar o jazigo. A terra parecia não ter fim. Meus braços latejavam de dor e cansaço enquanto o suor escorria do meu corpo encharcando minha roupa. Pelo menos assim parte de minha embriagues se foi.

Um inevitável sorriso brotou dos meus lábios quando a pá finalmente atingiu a madeira do caixão onde jazia minha amada. Depois de arrombá-lo, me senti feliz por ver Alícia. Ela estava linda não obstante aos seus lábios roxos entreabertos e sua pele acizentada.

happy wheels demo href="http://www.luasombria.com.br/wp-content/uploads/2013/01/mulher_caixao.jpg">Mulher no Caixão

Após retirar o corpo dela do caixão, peguei no bolso um papel com as instruções do ritual que iria trazer Alícia de volta para mim. Comecei a ler as palavras em latim clamando às forças do além para que devolvessem a alma de Alícia para seu corpo. No início as palavras saíam em tom de murmúrio, e em seguida fui aumentando o tom. Quando me dei conta, já estava berrando enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Nesse momento senti uma forte vertigem que me fez perder a consciência por alguns instantes. Percebi que ao meu lado haviam 7 pessoas, mas não podia ver o rosto de nenhum deles. Via apenas suas silhuetas com olhos incandescentes que drenavam minha energia. Voltei a escutar os sussurros, gargalhadas e gritos. E de certa forma, eu conversava com eles em sua linguagem ininteligível. Os ruídos simplesmente saíam da minha boca. Senti que não era mais eu quem estava fazendo aquilo.

Quando a vertigem chegou em níveis extremos, comecei a me ver participando do ritual com aquelas pessoas estranhas. Estava afastando do meu corpo e me aproximando de Alícia. Ela então escancarou a boca, foi quando me senti sendo sugado para o corpo dela. Sim, eu podia ver através dos olhos de Alícia. Na verdade até mais do que isso, eu agora estava controlando o corpo dela. Mas o que me deixou mais assustado foi ver que outro ser controlava meu corpo agora. Ele então sorriu com o canto dos lábios e disse:
— Não posso trazer a essência de Alícia de volta para você, mas agora tu podes ter o corpo dela. Em troca, levarei o teu!

E assim, usando o meu corpo, ele desapareceu entre as sombras junto com os outros participantes do ritual macabro. Quanto a mim, ainda não sei o que fazer. Estou preso no corpo putrefato de minha amada, que a cada dia está se deteriorando mais e mais. Digito essas palavras com os dedos mortos de Alícia, e agora estou espalhando pela internet na esperança de que alguém possa me ajudar. Irei morrer neste corpo? E se isso acontecer, irei me encontrar com Alícia ou minha alma permanecerá perambulando eternamente pelo inferno?

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Sobre o Autor

Desenvolvedor de sistemas web, fascinado por estórias sobrenaturais e música obscura. Criou o Lua Sombria para divulgar informações sobre bandas, livros, jogos de RPG e trocar idéias com pessoas que compartilham esses mesmos vícios.



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