Contos Rosa Morta

Publicado em 2 de fevereiro de 2012 | por Trevor

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Paixão Fria

 

Certas paixões podem mudar completamente a vida de uma pessoa…

Douglas andava de um lado para o outro. Conferia as horas em seu celular a cada 30 segundos e o suor começava a escorrer pela testa. Já esperava a 40 minutos e nenhum sinal de André.

- Droga! – praguejou – Eu não posso sair daqui sem minha encomenda! Aquele veado nem pra deixar o telefone ligado!

Após chutar a lata de lixo espantando o gato preto que lá se encontrava, Douglas pode ver André se aproximando.

- Porra André! Pensei que você não ia aparecer mais!

- Foi mal cara! O trânsito está uma merda, fiquei mais de uma hora agarrado na Av. Antônio Carlos!

- Mas então, trouxe minha encomenda? – perguntou, notavelmente ansioso.

- Está bem aqui. – disse André retirando uma pequena caixa de isopor da mochila.

Douglas rompeu o lacre e olhou o conteúdo rapidamente. Logo, um estranho sorriso tomou conta do seu rosto. André, ao ver aquela expressão, sentiu um frio percorrer sua espinha e advertiu:

- O velho Dorival me pediu para te avisar que tome muito cuidado com esse material. Isso não é para você, certo?

- Não, isso é um presente para Júlia.

- Quem é essa?

- Uma garota que conheci aqui na faculdade. Ah, como ela é linda! Pele alva, cabelos negros, olhos claros. Quero passar a eternidade ao lado dela!

- Como assim Douglas? Você nunca me falou dela! Há quanto tempo vocês se conhecem? Já estão ficando ou ela nem sabe dessa sua paixão?

- Nos conhecemos este semestre. Eu a vejo sempre nas aulas do Prof. Gustavo. Fico só admirando ela, apenas com os olhos. Mas nós nos encontramos às escondidas durante a madrugada, depois que todo mundo já saiu da faculdade. Fazemos amor sempre! Ela é especial!

- Cara, estou preocupado com você. O semestre mal começou, então você a conhece a pouquíssimo tempo e já está falando em passar a eternidade com ela!? Isso me parece doentio! O que você vai fazer com esse material que Dorival te vendeu?

Ao ouvir essas palavras, uma artéria pulsante brotou da testa de Douglas enquanto sua pele ficava avermelhada. Ele fitou bem os olhos de André e gritou:

- NÃO É DA SUA CONTA! Você está com inveja de nós dois e fica aí falando merda! Suma daqui antes que eu quebre seus ossos!

André sentiu o sangue congelar em suas veias. Apavorado, correu o mais rápido que podia sem olhar para trás. Chegou suado e trêmulo na república onde morava. Nunca havia presenciado tal comportamento nesses 7 anos que o conhecia. Lembrou de quando fizeram juntos o vestibular da UFMG, mas para cursos diferentes. Douglas passou a fazer o bacharelado de Medicina e André, Ciências da Computação. Como que uma garota poderia destruir a sanidade do seu amigo em tão pouco tempo?

Horas mais tarde, Douglas saia da sala de aula. Estava ansioso para encontrar com sua amada. Aquela noite seria especial. A relação dos dois nunca mais seria a mesma com o presente que estava prestes a entregá-la. Dorival sabia muito bem como preparar aquele tipo de substância. Nada poderia dar errado, e os dois finalmente poderiam ficar juntos para sempre!

As luzes do prédio se apagavam enquanto Douglas permanecia escondido no banheiro. Controlando sua ansiedade, ele aguardou pacientemente a hora certa, em que o último funcionário já teria ido embora e o vigia gordo estivesse em sono profundo. Olhou mais uma vez as horas no celular, que marcava 23:58. Estava na hora de se encontrar com Júlia, no lugar de sempre.

Ele cuidadosamente subiu as escadas, sem fazer barulho. Parecia que em cada canto happy wheels demo daquele prédio escuro havia alguém o observando, mas a ânsia em rever sua amada falava alto. Em cuidadosos passos, ele finalmente chegou frente ao laboratório de anatomia. Do bolso ele retirou sua cópia da chave e abriu a porta com cautela, mas o ranger da madeira velha foi inevitável.

Seus olhos, já acostumados com a escuridão, observaram cada canto do laboratório. Lá estava a bagunça deixada pelos alunos que usaram o local na última aula. Haviam bisturis largados ao chão e guarda-pós manchados de sangue. Mas Douglas sabia que Júlia esperava por ele no lugar de sempre. Ele então dirigiu-se até a geladeira e puxou a gaveta onde Júlia repousava.

- Júlia, como senti sua falta, meu amor! – disse enquanto contemplava o corpo nu da cadáver.

- Essa é uma noite especial minha adorada. Trouxe um presente que será nossa aliança, e nem a morte irá nos separar!

Da sua mochila, Douglas retirou a pequena caixa de isopor e abriu. Dentro havia uma grossa seringa e um pequeno recipiente com um líquido azul, que emanava um estranho brilho. Após carregar a seringa com a substância, ele a injetou diretamente no coração morto de Júlia.

- Agora vou tirá-la dessa gaveta, para que você possa se sentir mais confortável.

Douglas abraçou o corpo frio e o carregou cuidadosamente até a maca. Depois de fitar o belo e inexpressivo rosto de Júlia, o amante macabro levou o nariz até o pescoço dela e inspirou o cheiro do formol que imortalizava a cadáver.

- Ah, como seu perfume me excita, minha amada!

Ao olhar para seus lábios entreabertos, Douglas a beijou suavemente, introduzindo sua língua na boca gélida da mulher morta. O gosto azedo de carne estragada invadiu seu paladar, mas ele não se importava. Ao contrário, ele chupava a língua inerte apreciando ainda mais o sabor de sua diva. Sentiu o prazer tomando conta de si e despiu-se. Douglas então abriu as pernas de Júlia, debruçou-se sobre o corpo gelado e passou a se envolver em uma relação mórbida com a mulher.

Quase chegando em seu êxtase, sentiu que ela começava a corresponder aos seus movimentos. Sua gargalhada de satisfação foi inevitável:

- HAHAHAHA! SONHEI TANTO COM ESSE MOMENTO MINHA AMADA!

Júlia sorriu sem nada dizer. Em seu rosto era notável a expressão de prazer. Ela segurou o tórax de Douglas com força e apertou até que suas afiadas unhas perfuraram a pele do seu parceiro. Os dedos mergulharam em sua carne fazendo o sangue escorrer e o grito escapar da garganta. Não satisfeita, a morta-viva beijou agressivamente a boca dele. Com uma mordida, ela arrancou seu lábio inferior. Em uma segunda mordida, dilacerou a língua do rapaz, fazendo mais sangue molhar os corpos entrelaçados.

A pele de Douglas começava a esfriar, tanto pela carga de adrenalina quanto pela falta de sangue. Júlia se levantou e jogou na maca o seu amante, que já não conseguia dizer nem mais uma palavra. Lágrimas escorriam dos olhos do pobre rapaz enquanto ela continuava a devorar suas entranhas, até que restasse apenas uma massa composta por restos de carne e ossos, ilhado pelo próprio sangue que um dia foi do estudante de medicina.

Júlia permaneceu um tempo contemplando o que acabara de fazer. Foi a vez dela soltar sua gargalhada de satisfação. Ela ria de forma insana e sua voz etérea ecoou por todo o edifício. Em seguida, falou para si mesma:

- Adorável é a sensação de estar viva novamente!

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Sobre o Autor

Desenvolvedor de sistemas web, fascinado por estórias sobrenaturais e música obscura. Criou o Lua Sombria para divulgar informações sobre bandas, livros, jogos de RPG e trocar idéias com pessoas que compartilham esses mesmos vícios.



2 Responses to Paixão Fria

  1. Samir says:

    Após a gargalhada insana Júlia diz:

    – Yeah Yeaaahh :)

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