Contos A Rosa

Publicado em 27 de janeiro de 2011 | por Trevor

O Desabrochar da Rosa

“Deitou-se ali mesmo e realizou o choro sem lágrimas e um grito sem som daquelas almas que dão o último suspiro.” – Danielle Assis

Ainda que certos eventos da vida pareçam desconexos e sem sentido, em algum momento eles se conectam e tornam algo sólido. É assim que constelações inteiras são formadas. Esses eventos são um preparo para o momento mais concreto e importante da vida. Mas e se o ápice da vida for a morte? Quem irá nos contar mais a respeito é a Danielle Assis que gentilmente enviou este admirável conto de sua autoria. Encha sua taça de vinho e aproveite sua viagem para o século XVII através olhos de Magdalena Tremere!


Magdalena Tremere Vincent vivia numa cidade pacata no norte da Hungria. Descendente de mãe latina e pai europeu, desde pequena manifestou-se uma criança precoce em inteligência e linguagens múltiplas. Já com três anos pronunciava com fluidez palavras em espanhol e outras em inglês com muita facilidade. Com pouco tempo começou a formar frases completas. Foi desta idade em diante que sua vida foi marcada por profundas e tenebrosas transformações, pois, no ano de 1704 entrou para a escola, agora com cinco anos completos.

Recorda-se daquele dia como se estivesse lá. Muitas vozes ressoavam pelos corredores escuros da antiga escola de freiras, a qual foi matriculada a escolha meticulosa de seus pais. Muitas crianças corriam pelos corredores e eram advertidas pelas irmãs. Elas pegavam-nas pelos braços e viravam em direção a uma grande janela, isso os deixava atormentados. Mais tarde Magdalena descobriu que a janela era da sala da Madre Superiora do colégio. Quando entrou pela primeira vez em uma sala de aula, descobriu que o brilho do conhecimento poderia ser reduzido a um compêndio de 300 páginas ou até menos. Descobriu também que falar não era adequado a uma ‘criança inteligente’, principalmente, quando está se encontrava em frente ao quadro negro. Mas a descoberta que mais marcou Magdalena foi que sua precocidade a impedia de ter muitos amigos, pois, estes a rejeitavam caluniando-a de “bruxa dos bárbaros” (apelido dado a ela pelos colegas de sala).

No intervalo para o lanche, saiu da sala com sua malinha de madeira. De repente, foi cercada por quatro alunos; eles a carregaram e roubaram todo o lanche. Terminado o serviço, eles jogaram no chão a mala aberta e saíram zombando pelo corredor: “bruxa, bruxa….”. Chateada com a atitude dos colegas, Magdalena decidiu se afastar deles durante os intervalos e só se relacionava com eles nas aulas, se fosse ordenada pela professora. Certa vez estava quieta estudando astronomia na biblioteca, até que, olhou para o corredor da última prateleira e viu o vulto de um garoto, parado, próximo a outra mesa. Ela levantou-se e seguiu em direção a outra mesa. Pela primeira vez em sua vida sentiu seu coração disparar a cada passo. O garoto tinha os olhos e cabelos negros, mas sua face era de uma brancura pálida, que contrastavam com o vermelho de seus lábios.

Magdalena sentou se na mesa ao seu lado e observou-lhe por um tempo. Até que, num repente, ele voltou-se para ela com olhar oblíquo e acariciou seus cabelos. Virou as costas e saiu da biblioteca. Ela continuou sentada por um tempo refletindo a situação; jamais sentira mãos tão gélidas e vira um olhar tão indescritível a sua cabeça jovem. Essa foi à única vez que viu este garoto, alguns dias depois ficou sabendo que ele havia sido transferido para outro colégio.

Mas a expressão daquele jovem ficou marcada em sua mente, assim como, no coração. Foi neste período também que descobriu que tinha a capacidade de ver as auras das pessoas. Às vezes, ficava confusa pela variação de cores e sua relação com a personalidade individual. Com o tempo foi percebendo que estas variavam de acordo ao humor da pessoa. Mas outro fato que marcou o misterioso garoto da biblioteca foi este, pois, sua aura era cinza opaca e trêmula. Magdalena jamais viu nos anos que se seguiram outra aura igual à daquele jovem. Até…

Passaram-se, assim, dez anos. Quando Magdalena concluiu a educação básica seus pais a transferiram a um internato para, assim, ter uma formação direcionada. Neste intervalo de anos muitas mudanças foram ocorrendo em nossa pequena aprendiz. Foi nele que ela descobriu que os livros podem nos transportar para diversas realidades, além da, dos escravos de um mundo de interesses e trocas. Que ao fim só geram insatisfações. Ela gostava de passar horas a fio estudando livros de fotografia, literatura, artes e misticismo. Quando se aprofundou nos estudos místicos de matriz maia descobriu que sua descendência materna era bem marcante e, a cada dia, mais registrados no íntimo de sua consciência. Gostava de estudar as lendas e mitos do norte europeu, foi através destes estudos que percebeu que seu estilo favorito era o gótico, e adotou a cultura gótica como referencia cultural pessoal, não abrindo mão dos traços latinos e o gosto pelo misticismo maia.

Esbelta e altiva, Magdalena, tinha os olhos negros e a pele morena, latinos de sua mãe. Já na personalidade herdara a timidez e o gosto pelo saber de seu pai. Assim como, os longos cabelos castanhos. Suas cores prediletas eram preto e vermelho, assim, seu pequeno guarda roupa se resumia numa mescla de ambos os tons e alguns vestidos latinos, presentes de sua mãe. No dia da despedida, olhou para os pais com olhar lacrimoso e fechou sua grande mala de couro marrom. Abraçou-os uma última vez e saiu sem olhar para trás, pois, creditava a lenda que uma vez que sai pela porta não se deve olhar para trás, pois, se o fizer tu jamais voltarás.

Chegando ao lugar onde era o internato, Magdalena se maravilhou ao visualizar o grande castelo ao estilo gótico se estender entre a região montanhosa ao sul da Hungria. As janelas eram grandes e redondas e o portão de entrada todo de ferro. Havia uma grande floresta ao redor do ginásio, mas não permitiam sair além da horta.

Após a entrada havia uma estrutura de canteiro no centro de um grande pátio onde cultivavam uma pequena horta e algumas flores. Mais tarde Magdalena veio a descobrir como é ótimo cuidar de um jardim. Os dormitórios das jovens ficavam do lado direito e o dos rapazes do lado esquerdo. Havia um profundo redondo bem no centro separando os corredores um do outro; ao fundo ficavam os laboratórios, a biblioteca e logo abaixo o pátio. Havia também uma capela, aos fundos do pátio e atrás dela um cemitério.

Nos primeiros dias não houve aulas normais, somente apresentações e organização de turma. Passadas umas duas semanas, Magdalena já se adaptara ao regime de estudos. Aulas de Humanas pela manha e Exatas a tarde. Duas vezes na semana tinham de ir á capela e realizavam ensaios do coral aos sábados. Domingo era o único dia livre de atividade. Magdalena gostava de preenchê-lo com estudos musicais e místicos. Com as professoras do coral, iniciou-se nas suas primeiras peças de piano, o que, foi se aprimorando com o tempo. Sua precocidade não estranhava aos professores, mas os colegas de turma a olhavam de forma estranha. Não só devido a sua inteligência, mas também ao estilo de se vestir.

A maioria dos alunos eram bem sem graça e só usavam uma mortalha preta que chamavam de uniforme básico. Como não era obrigatório, Magdalena, continuou a se vestir como se sentia melhor. Vestidos de renda e luvas. Assim, passou-se rápido o primeiro ano de ginásio. Sem muitas novidades e transformações. Exceto que, com os estudos aprofundados, além de ver auras Magdalena começará a desenvolver a capacidade de enxergar no escuro. Devido as suas fugas noturnas para a floresta, para ler, seus instintos ficaram mais sensíveis a movimentos sutis. Ficava horas ouvindo os sons da mata ou tentando reconhecer e contar as estrelas e constelações.

Após passar as férias em casa, voltou para Hungria, meio a contragosto. Mas feliz por já estar na metade do processo. Sua sala do segundo ano era composta por quase os mesmos alunos da turma anterior, exceto por algumas meninas novatas. Passadas umas semanas sem novidades, certo dia chegou um jovem novato na sala. Ele entrou silenciosamente, jogando os cabelos para trás, dos olhos negros. Sua pele era pálida e seus lábios tão vermelhos que parecia usar gloss. Foi para os fundos rapidamente e sentou-se logo atrás de Magdalena, para sua tristeza.

Ao passar um tempo de olhares julgadores e conversinhas paralelas, a professora chamou-o a frente para se apresentar a classe. Ele levantou-se esguio e foi á frente com passo firme, olhou para toda a classe depois fixou os olhos em Magdalena e disse seu nome. “Johannes Thobes…”, o nome ficou repetindo-se em sua mente.

De repente, seus olhos pareciam petrificar, não conseguia desviar o olhar daqueles olhos negros penetrantes. Quando ele terminou a apresentação, voltou em direção à cadeira, e por um breve momento, parou rente a mesa de Magdalena e lhe fez um carinho nos cabelos. Neste instante, ela parecia sair de si mesma. Mal percebera as risadinhas das novatas e os olhares ao redor, após sentir um tremor percorrer toda sua espinha. Seu coração estava em descompasso e as mãos trêmulas. Ocultou-as debaixo da mesa e deitou a cabeça no livro. Seus pensamentos fluíam sem conexão: “as mesmas mãos gélidas, que olhar penetrante, pele pálida. Por que não consegui desviar-me?” Ao ouvir o sinal do intervalo, deu graças, por poder ir um pouco ao jardim espairecer a cabeça e olhar como estava o seu pequeno roseiral.

O intervalo era o único momento em que concediam liberdade de rapazes e moças ficarem juntos e se interagir. Chegando ao jardim Magdalena sentou-se no banco que dava para as roseiras e cravos. Sentiu um vulto sutil atrás de si, quando olhou para trás só havia um lindo botão de rosa vermelha no chão. Levantou-se pegou- o e foi em direção a capela, mas ao passar pela pequena entrada do cemitério percebeu que Johannes estava sentado numa tumba de frente a uma estátua angelical. Ela abriu o portão sutilmente, sem ruído seguiu para perto da estátua. Foi neste momento que teve a confirmação de que Johannes era o mesmo garoto misterioso da biblioteca de anos atrás, ao perceber sua aura cinza opaco tremular rapidamente quando colocou o botão de rosa no pescoço dele.

Eles trocaram olhares silenciosos, ele enlaçou os braços ao redor dela, deitando sua face em seu pescoço. Magdalena não sentia mais nada, além de, seu corpo gélido rente ao teu e o cheiro da rosa. Ele deu-lhe um suave beijo na testa, e saiu com olhar atordoado. Deixou o botão de rosa em cima da estátua de anjo. Magdalena não o barrou, apenas sentou-se a frente da estátua e ficou a observar… Naquele instante inesquecível, a estátua chorou, lagrimas escarlate. Magdalena levantou-se em sobressalto para ver se era sua imaginação, mas ao tocar no olho do anjo sentiu o escarlate em seus dedos, ao sentir o odor viu que eram lágrimas de sangue.

Passado este dia, Magdalena jamais o encontrou lá no cemitério, nem no jardim. Durante as aulas ele parecia distante e saia sempre antes do tocar do sino. Um dia, Magdalena decidiu segui-lo e descobriu que ele passava o intervalo na biblioteca sentado lendo. Neste dia ela convidou-o para lanchar e observou que ele não comia, sempre pegava só o leite ou a bebida do dia. Passaram a sempre ficarem juntos nos intervalos, conversavam sobre tudo: desde temas de aula até música, astronomia e misticismo. Sobre este último tema Magdalena observou que ele era bem obsequioso e objetivo. Por fim, passou a ser o assunto evitado… Até o dia em que ela perguntou-lhe acerca de sua palidez e por que suas mãos eram sempre frias. Ai ele contou como tudo começou, bem antes de Magdalena nascer.

Johannes era descendente direto de uma família romena muito rica. Seu pai era um príncipe de uma capela local e sua mãe descendente da Rainha Erzsébet. A família vivia ocupada com os afazeres do castelo e da capela. Seus pais tinham costumes peculiares e não gostavam de passeios ao sol, ou caças aos bosques. Eles saiam somente à noite, em caças e passeios. Certo dia num destes passeios, Johannes viu seu pai rasgar o braço de um camponês bêbado com um canivete e beber seu sangue. Deste dia em diante Johannes passou a ficar distante de seu pai.

Mas, com o tempo, sua mãe percebeu isto e lhe chamou para um passeio noturno, só os dois. Foram caminhando até que num momento ela virou-se para ele e mostrou a lua; uma magnífica lua cheia. Quando Johannes levantou a cabeça sua mãe lhe apertou o pescoço até sair sangue e sugou-lhe por três vezes seguidas, com pequenas pausas. Ele caiu ao chão inconsciente e após um tempo sentiu, algo grosso e escarlate escorrer para dentro de sua boca e à medida que escorria se sentia mais consciente e melhor. Foi assim que sua frieza começou, pois, depois daquele dia jamais foi capaz de sentir nada. E evitava sempre sair à luz do sol, pois, esta lhe queimava as retinas. Assim, sua pele foi ficando pálida e opaca, assim como os olhos.

Magdalena ficara petrificada ao ouvir o relato do amigo, não sabia o que dizer nem se alguma palavra era capaz de consolar. Assim, permaneceu em silencio. Agora tudo fazia sentido; as mãos gélidas, o olhar, a cor da aura… Exceto uma coisa: porque o anjo do cemitério chorou. Mas ela sentiu que as respostas não demorariam a vir. Voltavam para a sala, até que, ele puxou – a para o lado oposto. Conduzindo-a em direção a capela. Ele abriu a porta do cemitério e se encaminhou a estátua de anjo. Apontou para a estátua, que, para o espanto de Magdalena chorava sangue novamente. Ela voltou a ele um olhar confuso.

Ele a enlaçou num abraço apertado e disse-lhe ao ouvido: “ Eu te amo. Mas como aquela flor que lhe dei outrora, tu irá murchar e eu continuarei pela eternidade como está estátua fria que vês tu, agora ai na frente. Esta a perguntar por que ela chora sangue; desde aquele dia que lhe contei jamais fui capaz de chorar, assim como, meu toque é gélido é também meu coração. Que chora de dor ao ver-se perante seu grande amor, ver na fronte o fim de sua jornada e não poder segui-la nesta caminhada. Sabe por que os anjos choram? É porque eles sentem o âmago do amor, mesmo sem nenhum sentido. Ele está além da dor, porque é um anjo caído.”

Magdalena segurou-lhe o rosto com as duas mãos e olhando-o no fundo dos olhos beijou-o num compasso intuitivo de resposta:

Sendo assim, lhe darei meu último beijo mortal, pois prefiro ser uma estátua ao seu lado do que passar poucas luas contigo e murchar como aquela flor. Pois o amor só tem sentido, quando após grande sacrifício é mantido. Assim sacrifico minha vida para passar a Eternidade contigo”

Ele enlaçou a com um beijo ardente de uma alma carente. Ao sentir o escarlate escorrer pelo pescoço ela deitou-se ali mesmo e realizou o choro sem lágrimas e um grito sem som daquelas almas que dão o último suspiro.

Obs.: Esse texto foi enviado por Danielle Assis, sendo o mesmo de sua autoria. Caso queira enviar seu conto para ser publicado aqui no Lua Sombria, sinta-se à vontade para entrar em contato

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Sobre o Autor

Desenvolvedor de sistemas web, fascinado por estórias sobrenaturais e música obscura. Criou o Lua Sombria para divulgar informações sobre bandas, livros, jogos de RPG e trocar idéias com pessoas que compartilham esses mesmos vícios.



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