Contos ferrovia-para-nithera

Publicado em 21 de setembro de 2012 | por samir

Ferrovia para Nithera

Como manter a sanidade quando a luz no final do túnel trata-se de um trem vindo em sua direção?

Rafael acordou com dores pelo corpo. Ele não se lembra de ter dormido na viagem. Sentou-se sentindo ainda certa letargia e procurando localizar-se. Era sem dúvida o vagão de passageiros como o que tomara na Estação Central em direção a Vitória. Havia um cheiro de óleo e fumaça no ar. Conseguia enchergar muito pouco com a pouca luz avermelhada que havia provavelmente luzes de emergência.
“Deve ter ocorrido um acidente”, pensou. “Deve haver feridos. Talvez até mortos”. Não havia expanto, não sabia como podia tratar tal situação com tanta frieza, provavelmente o pior já havia passado e estava vivo. Sua prioridade era sair dali e ajudar quem pudesse no caminho.

Rafael caminhou lentamente se apoiando no que deveriam ser as poltronas em que os passageiros estavam sentados. Não caminhou muito até que tropeçou em algo. Parecia um corpo. Ele se abaixou e tentou procurar algum sinal de vida. Sua mão alcançou o rosto. Então o terror lhe tomou. Era o corpo Joana, sua esposa. Ele conhecia a textura daquela pele, a forma de seus lábios. Ele se lembrara de que ela estava ao seu lado na viagem.

Rafael permaneceu imóvel aos prantos por um longo período. Retornou à sua lembrança mais um fragmento de sua memória. Havia um filho, mas ele não viera nesta viagem. Ele estava na casa dos avós. Rafael ergueu-se com o pensamento de que seu filho Jonas precisava dele. Ele olhou o corpo de sua esposa mais uma vez e fez um juramento de que sairia dali vivo pelo seu filho e depois disso retornaria e daria a ela um enterro digno.

Rafael continuou seu percurso em meio a penumbra escarlate. Não havia como sair do vagão pelas janelas pois haviam escombros. Havia corpos por todos os lados. No extremo do vagão havia uma passagem para o próximo vagão. “Será que os outros sobreviventes se salvaram e me deixaram para traz pensando que eu estava morto?” Rafael se lembrara da causa da viagem: resolvera levar Joana para uma segunda lua de mel, mas na verdade era uma forma de se desculpar por suas traições e ausência como pai e marido. Seu trabalho tomava muito tempo. Havia pouco tempo para sua família, parentes ou amigos.

Que amigos? Possuía dinheiro, sim, muito dinheiro, – se lembrara. Rafael veio de uma família simples, mas se mostrou um advogado notável e de poucos escrúpulos. Qualidade, esta, que os criminosos de colarinho branco valorizam. “Mas porque diabos pegamos um trem? Nós podíamos ter feito a viagem de avião!” Fora numa viagem semelhante muito tempo atrás quando Rafael era apenas um estudante de Direito que ele conhecera Joana.

Enquanto andava ele passou a perceber que o cheiro de fumaça e óleo haviam se intensificado. Uma sensação de desespero crescente surgia. Rafael colocou a mão no bolso por instinto e retirou seu celular. Estava funcionando. “Graças a Deus”. Mas sua alegria durou pouco, pois não havia sinal. Havia uma chamada não atendida. Pelo horário Rafael não devia estar acordado. Igor, um de seus clientes. “Aquele viciado!” Lembrava que aconselhara a Igor para não se preocupar, pois se por ventura a testemunha não comparecesse a audiência não haveria ninguém para depor contra ele. “Igor, você consegue alguém para dar cabo desta testemunha! E para de injetar essa merda. Já basta a merda que você fez! Chega de problemas!” “Sugeri a meu cliente que matasse um inocente”, pensou surpreso com sua própria atitude. “Que espécie de pessoa eu sou?” De fato, Rafael cometera muitos atos ruins em seu ofício.

De repente a uma luz no último vagão lhe deu esperanças. Rafael se apressou andando por cima das poltronas e cadáveres e então alcançou a passagem para fora daquele vagão. Rafael emergira para fora daquela escuridão e se deparara com uma cena que o atordoara. Sua pulsação se elevou. Ele então entendera onde estava e porque estava só. Rafael se lembrara do acidente em que o trem se chocara com outro em direção contrária. Havia apenas uma figura a sua espera naquela paisagem surrealista: Um homem de terno branco.

O homem sorriu lhe estendendo a mão:

– Seja bem vindo, Rafael, ao inferno!


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