Contos Belo Horizonte

Publicado em 11 de janeiro de 2011 | por Trevor

Carência

“Assim como o sofrimento pode vir embalado num encantador papel de presente, a paz pode estar oculta em uma caixa macabra e coberta de desolação.”

 

Quando demasiada solidão cria marcas em sua alma, você se torna uma criatura à parte do mundo. As pessoas te olham e sentem-se inconscientemente perturbadas. A partir desse ponto, sua aura levanta um inquebrável muro de solidão que mantém os outros à distância. Esse muro só pode ser atravessado por alguém que tenha a mesma desordem mental que você. Quem nos conta a história de hoje é Lincoln Pereira, que nos enviou este admirável conto de sua autoria. Boa leitura!

 

Eduardo estava passeando no centro de Belo Horizonte. Ele gostava de fazer isso de vez em quando para esvaziar sua mente, nem que fosse para andar à toa. Eram quatro horas da tarde e as nuvens carregadas no céu quase deram a impressão de que estava anoitecendo cedo demais.

No momento em que o adolescente adentrara o Parque Municipal, ele se viu cercado por um cenário até então ausente em seu cotidiano. Por onde ele andasse era sempre obrigado a olhar famílias felizes e descontraídas, grupo de amigos rindo e casais de namorados curtindo um clima de romance. Eduardo sentou em um banco próximo e ficou de cabeça baixa. Aquele tipo de cena era desanimadora demais. Ele sentia inveja daqueles que nasceram com a chance de serem amados. Desejava sentir aquela mesma sensação no fundo de sua alma. Infelizmente, amor era um sentimento ausente em sua vida, pois estava vivendo uma mentira. Mesmo sendo rico, mesmo sendo capaz de ter tudo o que queria, sentia-se um nada. E para piorar, ele não tinha amigos com quem pudesse partilhar suas alegrias ou tristezas. Lágrimas rolaram discretamente no rosto dele.

— Duda? Duda, é você?

Uma voz feminina chamou a atenção do garoto. Ele secou suas lágrimas discretamente e viu quem era. O garoto percebeu que se tratava de uma garota, aparentemente da mesma idade dele e ela estava bem vestida, denunciando que ela era rica. Além disso, achava a fisionomia daquela menina familiar.

— Duda, sou eu. A Beatriz. – Apresentou-se. – Não se lembra?

Foi então que Eduardo se lembrou que, há dois anos atrás, estava em uma festa organizada por seus pais na casa da família. Muitos foram os convidados que vieram e uma garota chamada Beatriz Camões estava entre eles. Ela foi a única pessoa no mundo que pelo menos deu algum conforto ao garoto. Conversavam sobre muitas coisas, mas nunca tiveram a chance de se conhecerem melhor e depois daquela festa eles nunca mais se viram, porque seus pais moravam no exterior. E ela estava bem na sua frente, mesmo com o visual diferente, o garoto foi capaz de reconhecê-la. Então Eduardo aproximou-se dela e lhe deu um forte abraço, como se nunca tivesse abraçado alguém e Beatriz retribuiu na mesma hora e com a mesma intensidade. A presença dela, de certa forma, trouxe algum conforto ao garoto. Além disso, era a primeira vez que Eduardo recebeu um gesto afetivo como aquele em anos.

— Mas vem cá, quando é que você veio? – Perguntou Eduardo.

— Há uns três dias atrás. – Respondeu ela. – Meus pais estão ocupados com certos assuntos de família e vim junto com eles.

— Que tipo de assuntos?

A jovem rica assumiu uma fisionomia séria subitamente.

— Particular.

— Tudo bem.

De repente, Eduardo e Beatriz sentiram um ronco quase inaudível em seus estômagos. Era hora certa para um lanchinho.

— Bom… – Eduardo ficou meio sem graça. – Tem uma tenda de cachorro-quente perto daqui. Eu pago.

— Tá bem.

Sem dizer mais nada os dois foram até lá.

Com a refeição nas mãos, o saboroso aroma abriu ainda mais o apetite dos dois. Beatriz já deu a sua primeira mordida.

— Tá uma delícia. – Elogiou Beatriz.

Os dois continuaram comendo. Enquanto comia, Eduardo não conseguia parar de olhar para a garota ao seu lado. Desde o momento em que ele a encontrou, sentia algo intenso queimando de dentro dele. Um desejo forte de ficar mais próximo dela. Beatriz percebeu isso.

— Algum problema, Duda?

— Nada de mais. Eu só fiquei surpreso de ter reencontrado você depois de tanto tempo e olha que a gente ainda não se conheceu direito.

— Sim, mas mesmo assim posso perceber que você não está falando totalmente a verdade. Que está evitando falar sobre os seus problemas por exemplo.

— Como assim?

— Me deixa adivinhar: Seus pais trabalham demais e não dão atenção a você, não é?

Houve um breve silêncio e depois disso Eduardo desabafou:

— Nem imagina o quanto. Ás vezes, sinto que ninguém liga se estou vivo ou morto, até mesmo minha própria família.

— Eu posso entender o seu desânimo de viver. Até porque estou sentindo a mesma coisa. – Disse Beatriz.

— Como assim?

Terminado a refeição, a garota se aproxima lentamente de Eduardo a ponto de seus rostos ficarem próximos um do outro. Nunca em sua vida o garoto sentiu o seu coração palpitar tão rápido na sua vida.

— Sinto que não recebo amor e atenção das pessoas como gostaria. Eu me sinto solitária freqüentemente. Para dizer a verdade, você foi a única pessoa que está notando que eu existo. Ou você acha que não percebo você olhando para mim?

Eduardo aproxima mais o rosto de Beatriz e dá o seu primeiro beijo. Um beijo que foi correspondido de uma forma mais intensa, a ponto dos dois caírem na grama do parque sem ninguém perceber e continuarem se beijando e se tocando ainda deitados. Lágrimas rolaram no rosto de Leonardo, assim como no rosto de Beatriz. Era a primeira vez em anos que se sentiam amados. Aquele momento de paixão foi se tornando cada vez mais intenso a cada minuto. Ambos os jovens queriam botar para fora a ânsia de afeto que sentiam.

Eduardo nunca se sentiu tão radiante em toda a sua vida. Acabara de ter um momento de amor com uma garota. Os dois só não continuaram por causa do guarda que estava vigiando o local, mas assim mesmo foi a experiência mais bela que o adolescente já passou. Depois disto, despediram-se um do outro.

Quando Eduardo chega em casa, já eram sete horas da noite. E no momento em que abre a porta da frente, vê uma cena quase rara em seu dia-a-dia. Os seus pais estavam na sala de estar, totalmente vestidos de preto.

— Ainda bem que chegou, Eduardo. – Disse o pai dele. – Agora vá se trocar. A gente vai sair.

— Pra onde nós vamos? – Perguntou o rapaz.

— Para um velório. Um membro da família Camões faleceu nesta madrugada. E a família inteira faz questão que estejamos lá para consolá-los. – Disse a mãe.

Imediatamente, o adolescente foi para o quarto se trocar. Em outras circunstâncias, Eduardo se recusaria a ir com eles, até porque quando seus pais o chamavam para sair, ou era para um jantar de negócios ou uma festa da alta sociedade, tudo isso para dar a impressão de que eles eram uma família feliz e assim aumentar a reputação deles. Mas agora era diferente, pois se tratando da família de Beatriz, não podia deixar de apoiá-la.

A família Silva chegou na Funeral House, no centro, onde estava sendo realizado o velório e como era de costume, muitos membros da alta sociedade e até mesmo alguns políticos influentes estavam lá para dar os pêsames a família. A casa funerária era de uma beleza exuberante, mas Eduardo não ligava muito em observá-la. Ele foi em direção a uma velha senhora.

— Com licença, onde está Beatriz Camões? – Perguntou.

— Está na sala Orion. – Respondeu a anciã, apontado para a escada próxima aos dois. – Lá em cima.

Sem perder tempo, Eduardo subiu até o segundo andar da imensa casa e foi em direção a tal sala. Porém, no exato momento em que abriu a porta, o adolescente teve uma surpresa nada agradável. Sua pele nunca ganhou uma cor mais branca como naquele momento. Ele percebeu que o cadáver dentro do ataúde era da própria Beatriz. O garoto ficou apavorado. Então estava conversando e beijando alguém que já morreu e nem sequer se deu conta? Eduardo vai em direção a saída até que, de repente, a porta do local fechou sozinha. Logo depois, a energia da casa acaba, mergulhando o lugar inteiro na mais imensa escuridão, mas passado um momento a luz retorna, porém, trazendo algo ainda mais horripilante para Eduardo. Quando o adolescente olhou em direção ao ataúde em que Beatriz estava, seu rosto se contorceu em uma faceta que representava o mais puro horror. O fantasma de Beatriz estava encostado na parede, de costas para Eduardo.

— Beatriz… – Murmurou o adolescente, amedrontado. – Você… Você…

— Estou morta? É claro que sim. – Disse ela, ainda de costas para Eduardo. — Durante toda minha vida, nunca entendi o porque dos meus pais serem frios comigo. Nem mesmo me deram parabéns em nenhum dos meus aniversários. Sentia-me vazia por dentro. Não tinha nenhum amigo para amenizar essa minha dor que se chamava solidão. Eu não estava agüentando mais! Eu queria acabar com tudo aquilo de uma vez e… Aqui estou eu…

— Você… Você se matou?

— Exatamente… Peguei escondido da minha família uma corda e escada… E me enforquei. — Murmurou Beatriz com tristeza em sua voz. – No entanto, nem mesmo a morte livrou-me de minha dor. Pelo contrário, minha solidão, minha carência tornou-se mais forte. Durante o meu desespero, me lembrei de você e do quanto sofria com o mesmo fardo que o meu.

O espectro da garota agora se virava devagar para frente de Eduardo, revelando assim não apenas a face de Beatriz como também o corpo dela, que não haviam coloração nenhuma. Uma palidez que somente um cadáver é capaz de ter, mas o detalhe mais horrendo de todos é o fato dela chorar lagrimas de sangue e seus olhos tinham as iris totalmente embranquecidas.

Eduardo estava suando frio. Jamais imaginara que veria um fantasma de perto. Nem mesmo em seus pesadelos mais sombrios.

O fantasma de Beatriz flutuava, se aproximando cada vez mais do adolescente, que por sua vez estava paralisado de medo olhando ela chegar mais perto. O coração de Eduardo parecia que ia sair pela boca no momento em que o abantesma da garota o abraçou, deixando os seus rostos bem próximos um do outro.

— O que você quer? — Perguntou Eduardo, sendo forçado a olhar fixamente aos olhos mortos daquele espectro maldito.

— Eu quero você, Duda. — Murmurou Beatriz. — Eu preciso de você… Não agüento mais… Estou tão carente. Só você pode me ajudar a amenizar o meu tormento. E eu sei que você também quer isso, não estou certa?

Então, de forma súbita, o fantasma de Beatriz aproxima ainda mais sua face da de Eduardo e suas bocas se unem em um beijo juvenil, intenso e fantasmagórico. Naquele momento, o garoto podia ouvir batidas do lado de fora da sala e pessoas gritando o seu nome. Debatia-se intensamente. Porém, quanto mais ele lutava, mais a garota ficava colada a ele. Nesse momento, dominado por sua própria carência, Eduardo cede e retribui aquele beijo sepulcral da maneira mais intensa possível. Mesmo ela sendo um fantasma, Beatriz era a única pessoa que estava demonstrando afeto para com ele e queria aproveitar aquele momento de amor, não importando o que aconteceria depois. Não estava se importando mais com a sua vida. A luz acaba novamente.

Os que estavam presentes no funeral de Beatriz conseguiram abrir a porta através da força. A luz retorna 5 minutos depois. Os pais de Eduardo, os pais de Beatriz e outros presentes ficaram perplexos com o que viram. Além do caixão de Beatriz, havia outro e nele estava Eduardo Silva. A sua mãe cai em desespero e chora descontroladamente, o pai do garoto a consola, ao mesmo tempo em que tenta entender e acreditar no que estava acontecendo. Uma mulher soltou um grito e todos correram para fora da Funeral House. O que eles viram era as almas atormentadas de Eduardo e Beatriz, de mãos dadas, chorando lágrimas de sangue.

Este conto foi escrito por Lincoln Pereira. Caso você também queira ter seu conto publicado aqui no Lua Sombria, sinta-se à vontade para entrar em contato.

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Sobre o Autor

Desenvolvedor de sistemas web, fascinado por estórias sobrenaturais e música obscura. Criou o Lua Sombria para divulgar informações sobre bandas, livros, jogos de RPG e trocar idéias com pessoas que compartilham esses mesmos vícios.



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